domingo, 28 de junho de 2009

Biografia: Carl Ransom Rogers (1902-1987)


Carl Rogers nasceu no dia 8 de janeiro de 1902, em Oak Park, nos arredores de Chicago. Os pais de Rogers vinham de uma cultura protestante moralmente rígida, ambos tinham formação universitária e estimulavam uma atmosfera intelectual na família.
Aos 12 anos, Rogers e sua família mudam-se para um fazenda, onde há terra suficiente para iniciar um atividade agrícola.Em conseqüência dessa atividade ,Rogers matricula-se, em 1919, no curso de Agronomia da Universidade de Wisconsin.
EM 1924, termina a faculdade de Historia e matricula-se no Seminário da União Teológica em Nova Iorque. Freqüenta alguns cursos na faculdade de Psicologia dessa Instituição e no segundo ano, toma consciência de sua falta de vocação para a carreira religiosa e transfere-se para o curso de Psicologia do Teacher’College da Universidade de Columbia.
EM 1928, doutora-se no Teachers’ College. A parir de 1929, dirige, durante 12 anos, o Centro de Observação e Orientação Infantil dessa Sociedade. Seu primeiro livro surge em 1939:” O tratamento clinico da criança-problema”.
De 1945 a 1957, Rogers tem um período muito rico em termos de produção científica, com muitas publicações. Seu livro de 1951”,Terapia centrada do Cliente”é um dos pontos altos dessa produção .
EM 1916, Rogers publica o livro “Tornar-se pessoa”, que rapidamente transforma-se em um best-seller mundial. Em 1970 o mesmo acontece com o livro “Grupos de encontro”.
A partir de 1972, dedica-se principalmente à reflexão sobre aspectos sociais e políticos, surgindo dessas reflexões o livro “Poder Pessoal” em 1977.
Rogers faleceu em La Jolla, na Califórnia no dia 4 de Fevereiro de 1987, após uma fratura de colo de fêmur.

Teoria Rogeriana: Aprendizagem Centrada na Pessoa

“O único homem que se educa é aquele que aprendeu como aprender: que aprendeu como se adaptar e mudar; que se capacitou de que nenhum conhecimento é seguro, que nenhum processo de buscar conhecimento oferece uma base de segurança”.
( ROGERS apud COELHO e JOSÉ, 1993 p.9)

A teoria de Carl Rogers nos remete a uma reflexão sobre o processo de aprendizagem que permeia a educação tradicional instigando-nos ao desenvolvimento de um posicionamento crítico no sentido de propor mudanças a esse processo apontando assim caminhos para a construção de uma aprendizagem mais significativa para o aprendiz, onde esta, “é mais que uma acumulação de fatos, é uma aprendizagem que provoca uma modificação, quer seja no comportamento do indivíduo, na orientação futura que escolhe ou nas suas atitudes e personalidade. É uma aprendizagem penetrante, que não se limita a um aumento de conhecimentos, mas que penetra profundamente todas as parcelas da sua existência”.(ROGERS, 2001)
Voltada para uma abordagem centrada na pessoa e utilizando o método da não diretividade (ou seja, o professor não interfere diretamente no campo cognitivo e afetivo do aluno), a proposição de Rogers implica num modelo de educação onde o indivíduo tenha liberdade e responsabilidade na escolha de caminhos que possam subsidiar a construção do conhecimento e que este só se concretiza quando o aluno é um agente ativo e o professor visto como um facilitador nesse processo. Dentro desse contexto, o estudante é o centro da sala de aula, podendo selecionar conteúdos que considera relevante para sua vida mantendo a partir daí, uma relação interpessoal com o facilitador que por sua vez deve ser autêntico, confiar na potencialidade de cada aluno possibilitando liberdade de expressão sem nenhum preconceito ou aversão e, ao contrário da aplicação de uma avaliação formal, facilitar o processo de auto-crítica e auto-avaliação por parte do aluno.
Está explícito no discurso de Rogers a sua inquietação acerca da metodologia adotada pelas escolas tradicionais onde suas regras são impostas de maneira vertical, ou seja, de cima para baixo, sendo o aluno percebido como um ser passivo, neutro diante da tomada de decisão acerca de sua aprendizagem.As escolas preparam seu currículo preocupadas no que deverão ensinar a seus alunos quando na verdade a proposta deveria ser outra, ou seja, “o objetivo de nosso sistema educacional, desde a escola maternal até a escola de pós-graduação, deve derivar-se da natureza dinâmica de nossa sociedade caracterizada por mudança, não por tradição, por processo, não por rigidez estática”, seu objetivo “deve ser o desenvolvimento de pessoas ‘plenamente atuantes’.(MILHOLLAN e FORISHA, 1978. p.175-176).
Apesar de alguns críticos considerarem utópica e irrealizável, a teoria rogeriana é bastante instigadora e revolucionária e, para que a mesma seja colocada em prática é necessário que ocorra uma mudança no âmbito educacional no sentido de proporcionar uma práxis pedagógica mais centrada no aluno, levando em conta seu real interesse,seus sentimentos, emoções, e esse objetivo é alcançado mais facilmente quando o professor na posição de facilitador, busca uma relação mais democrática com o aluno demonstrando preocupação e interesse pelo mesmo, facilitando assim o processo de aprendizagem.

Abordagem Centrada na Pessoa: qualidades que facilitam a aprendizagem


“Não podemos ensinar, apenas podemos facilitar a aprendizagem” (ROGERS, 1986 apud CAPELO, s/d). Para Rogers, em sua Abordagem Centrada na Pessoa, o professor não é mais visto com centro do processo ensino-aprendizagem, onde o docente era o detentor do conhecimento, e esse, transferia as informações para os seus alunos. Pelo contrário, na teoria de Carl Rogers, o professor é visto como um facilitador, onde não é o docente que ensina e sim o aluno que aprende, o importante não é o que ele aprende, e sim como ele aprende. O papel do professor facilitador é instigar o aluno, atiçar a sua curiosidade e desafiá-lo a buscar novos conhecimentos. Para que esse processo aconteça, de acordo com Rogers, é necessário um conjunto de qualidades que transformam o professor em facilitador da aprendizagem, são elas:

· Autenticidade ou Congruência, Rogers no livro Pessoa para Pessoa, define esses termos: “em primeiro lugar, a minha hipótese é que o crescimento pessoal é facilitado quando o conselheiro é aquele que, na relação com o cliente, é autêntico, sem máscara ou fachada, e apresenta abertamente os sentimentos e atitudes que nele surgem naquele momento. Empregamos a palavra ‘congruência’ para tentar descrever esta condição”, ou seja, o professor na condição de facilitador ele é autêntico, sem disfarce ou falsidade, ele se assume como ele é, com defeitos e qualidades, tristezas e alegrias, e essa transparência é que cativa os alunos e conquista a confiança deles;

· Compreensão Empática como a “capacidade de se emergir no mundo subjectivo do outro e de participar na sua experiência, na extensão em que a comunicação verbal ou não verbal o permite. É a capacidade de se colocar verdadeiramente no lugar do outro, de ver o mundo como ele o vê” (ROGERS; KINGET,1977 apud GOBBI et al, 1998), ou seja, é a capacidade do professor facilitador de se colocar na posição de aluno, podendo assim compreender quais as dificuldades dos estudantes, valorizando-os enquanto ser;
· Aceitação Positiva Incondicional é aceitar o outro da maneira que ele é, sem preconceitos ou julgamentos, com respeito e apreço pelas expressões dos seus alunos. O facilitador confia no estudante e acredita que ele é um ser em transformação.

Em suma, para que a aprendizagem seja significante para o educando, é necessário que haja uma boa relação interpessoal entre o facilitador e o aprendiz, e essas qualidades acima citadas são as bases para essa relação, proporcionando assim uma esfera de bem estar emocional e intelectual onde o desenvolvimento da aprendizagem terá um maior aproveitamento.

Entrevista concedida por Carl Rogers à revista Veja


Por um homem melhor

O Pai da psicologia humanista fala de batatas, pessoas, governos, ladrões e acadêmicos.

Por Fabíola I.de Oliveira

Nascido em 1902, e psicólogo pratico desde 1927, Dr.Carl Rogers passou cerca de 15 anos acreditando que o papel do psicoterapeuta era apenas o de manter-se a parte quanto a seus sentimentos em relação ao paciente. Assim distanciado ,pensava ele, ficava mais fácil enxergar as soluções adequadas. Depois de experiências vividas com alunos e com pessoas que vinham à procura de ajuda, Rogers acabaria percebendo, no entanto,que quanto mais se abria como pessoa no relacionamento com o paciente mais efetivo e rápido tornava-se o sucesso do tratamento. E através do desenvolvimento dessa idéia se afastando cada vez mais da psicologia tradicional ou freudiana e da psicologia do comportamento , ao ponto de hoje confessar que acredita ser “um fenômeno embaraçosamente doloroso para os psicólogos acadêmicos”.
A partir da publicação, em 1942, de “Conseling and Psychotherapy”, seu primeiro livro sobre aconselhamento centrado no cliente, ele passaria a influenciar, os mais diversos campos profissionais , tanto nos Estados Unidos – onde nasceu e vive até hoje como em outros lugares do mundo , onde é conhecido como um autêntico desmistificador de psicoterapia.
Com efeito, Rogers abriu a psicoterapia à observação pública e à pesquisa investigatória, sendo o primeiro a gravar e depois a filmar sessões terapêuticas. Assim expunha seus métodos à pesquisa cientifica. Antes dele, nenhum psicoterapeuta havia tido a coragem de mostrar, publicamente , suas falhas e seus sucessos, a observar e a estudar não só as reações da pessoa tratada mas suas próprias atitudes do processo terapêutico.
Hoje, Carl Rogers, dedica-se, junto seus colegas do Centro para Estudos da Pessoa, em La Jolla. Califórnia, onde é professor residente, à organização de grupos de encontro onde os pacientes entram em comunicação uns com os outros e pouco a pouco vão se descobrindo e se livrando de seus mal-estares emocionais. Há um mês no Brasil acompanhado por quatro membros de sua equipe, Rogers participa, na Aldeia de Arcozelo, no Rio de Janeiro, do primeiro Encontro Centrado na Pessoa, no Brasil. Lá, durante duas horas, ele concedeu esta entrevista a "VEJA".

VEJA – Como se situaria a pessoa humana diante da psicologia humanista?
ROGERS – O ser humano, como todos os organismos, tende a crescer e a se atualizar. É claro que todos os fatores sociais, econômicos e familiares podem interromper esse crescimento, mas a tendência fundamental é em direção ao crescimento, ao seu próprio preenchimento ou satisfação. Costumo exemplificar esse processo lembrando batatas que guardávamos no porão da nossa casa na fazenda. Elas criavam brotos porque havia uma janelinha no quarto. Era uma tentativa inútil, mas parte da tentativa do organismo de se satisfazer. Você consegue um produto muito diferente quando planta uma batata na terra, e comparo esse processo ao que pode ser encontrado em delinqüentes e em pessoas que são tidas como doentes mentais: o modo como suas vidas se desenvolveram pode ser muito bizarro, anormal; no entanto, tudo o que elas estão fazendo é uma tentativa para crescer, para atualizar seus potenciais. O fato de essa tentativa causar maus resultados situa-se mais no meio ambiente do que na tendência básica do individuo. A pedra fundamental da psicologia humanista pelo menos como eu vejo, é ,portanto essa crença de que o ser humano tem um organismo positivo e construtivo.

VEJA – A psicologia humanista pode ajudar a sociedade a resolver seus problemas ? De que modo?
ROGERS– Ela não é uma solução para todos os problemas do mundo, mas pode ajudar muito na solução dos problemas psicológicos e sociais. Pode ajudar o individuo a crescer em direção a uma personalidade mais normal , mais expansiva. A psicologia humanista tem os instrumentos para reconciliar diferenças, para ajudar as pessoas a observarem os pontos de vista dos outros.

VEJA – Um governo com uma visão humanista não seria , então, mais poderoso que uma psicologia humanista?
ROGERS – Para mim, isso é um sonho, mas seria bom esquematizar uma utopia com um governo humanista.Quanto mais um governo acredita num ponto de vista humanista possibilidades existirão de promover um clima no qual os cidadãos possam crescer e trabalhar junto mais harmoniosamente, e no qual haverá mais compreensão,ou respostas, as suas necessidades. Mas não vejo nenhuma possibilidade do que eu chamaria de um governo humanista.
VEJA – O que o senhor pensa da psicologia acadêmica?
ROGERS – Nos Estados Unidos , a psicologia Acadêmica poderia dar excelente aconselhamento e ajuda a governos ditatoriais. Acho que, se qualquer autoridade diz “ queremos que as pessoas sejam mudadas desta forma”, a psicologia acadêmica sabe muito bem como mudar as pessoas, gradualmente, no sentido que se quiser. E vejo isso como um grande perigo. A psicologia humanista seria uma valiosa conselheira a uma forma de governo democrático, pois ela o ajudaria a ser cada vez mais democráticos, a compreender as capacidades, os direitos e a habilidade do cidadão de ser responsável.

VEJA – O senhor tem se dedicado profundamente à organização de grupos de encontros. O que vem a ser, para o senhor um grupo de encontro?
ROGERS – É uma oportunidade para as mais diversas pessoas se encontrarem, sem nenhum planejamento, a não ser elas mesmas e seus inter-relacionamentos. Não existe um tópico a ser discutido nem problemas imediatos a serem resolvidos. Então, sobre o que se vai falar? Quando as pessoas percebem que qualquer coisa pode ser discutida, então começam a falar mais de si mesmas e o encontro torna-se mais profundo. A pessoa começa a acreditar que o grupo pode compreende-la e o processo pode ser descrito como uma percepção dos próprios sentimentos, que as pessoas nunca pensaram possuir, tentando novas maneiras de se comportar no grupo, desenvolvendo relacionamentos mais íntimos, sejam eles positivos e de amor, ou de raiva e confrontação, mas, de um jeito ou de outro, se aproximando mais como pessoas.

VEJA – Qual a diferença entre os grupos de encontro e a terapia individual?
ROGERS – Na terapia de um-para-um, o cliente sente que é um milagre que ele possa ser aceito e compreendido – mas será que alguém mais o compreenderá? Em um grupo de encontro, ele logo percebe: “Todas essas pessoas me aceitam? E nem ao menos estão sendo pagas para isso?” E isso é muito forte, pois provoca o sentimento de que, “quem sabe, eu sou uma pessoa aceitável”. Nesse sentido, o grupo de encontro pode ser de maior efeito que a terapia individual.

VEJA – Que mudanças ocorrem num grupo de encontro em relação à percepção ou conscientização?
ROGERS – Tanto na terapia quanto no grupo de encontro, a mudança mais notável é a expansão da conscientização do individuo. Ele vem para o grupo achando que sabe quem é e que está consciente de si mesmo. Mas, quando começa a se abrir e a notar como as pessoas ouvem com atenção, ele descobre, dentro de si mesmo, coisas que não havia percebido antes. Começa a sentir que é mais do que pensava ser, que tem sentimentos que nunca havia notado. Uma pessoa que nunca mostra raiva, por exemplo, perceberá, no grupo, que tem raiva dentro de si. Ela não se esquecerá disso e reconhecerá, no fundo, quando sentir raiva, que não poderá mais escondê-la – e terá condições para lidar com ela.

VEJA – Por que o senhor chama de “facilitadores” os lideres dos grupos de encontro?
ROGERS – Porque o termo “líder” implica que uma pessoa sabe para onde o grupo irá se dirigir e o orientará nessa direção. Então eu prefiro chamá-lo de “facilitador”, porque minha idéia de seu propósito no grupo é a de que ele deve permitir que as pessoas se expressem sem saber onde isso as levará. Ele facilita essas expressões do grupo mas não controla sua direção. O facilitador pode saber alguma coisa sobre o processo de grupos e o mesmo é verdadeiro para a terapia. O tipo de terapeuta que eu gosto é o que age como um facilitador, pois não tem noção do que surgirá na terapia, ou que direções a pessoa escolherá para si mesma.

VEJA – E, se ocorrer uma crise dramática dentro do grupo, o facilitador deve então fazer o papel de líder?
ROGERS – Não, não! O facilitador inexperiente pode se sentir tentado a fazê-lo, mas o experiente procurará acreditar no grupo. Lembro-me do que aconteceu com um membro de nossa equipe quando um homem sofreu uma terrível crise psicótica, numa sessão de grupo de encontro. As pessoas entraram em pânico e exigiram que o facilitar fizesse alguma coisa, mas ele se manteve calmo e fez com que o grupo discutisse sobre que atitude tomar. Algumas pessoas que se sentiram mais próximas ao homem tentaram conversar com ele, mas o grupo ainda achava que ele deveria ser internado. Pediram-lhe então que voltasse ao grupo, discutiram seus sentimentos e suas preocupações com ele. No fim, tudo foi resolvido e mais tarde ele fez terapia, sem hospitalização. O ponto é que o grupo, como um todo, é capaz de agir muito mais sabiamente do que uma pessoa sozinha.

VEJA – As qualidades essenciais para um facilitador podem ser ensinadas ou são naturais?
ROGERS – As qualidades essenciais para terapia individual – ou para grupos de encontro – foram especificadas há bastante tempo e têm sido confirmadas por pesquisas. Primeiro, se a pessoa está ligada a outra, como pessoa, genuína e real –sem envergar um avental branco de doutor-, isso será de grande ajuda. Depois, se a pessoa sente uma importância real pela outra, vai tornar seu crescimento e seu desenvolvimento mais possíveis.
E, por último, se ela pode realmente compreender o mundo interior do outro, verdadeiramente se sentir parte do universo de uma pessoa, essa capacidade para a empatia será muito importante para o crescimento construtivo. Dessas três, acredito que uma pode ser facilmente treinada – a empatia. As pessoas podem aprender a ouvir melhor e com mais compreensão, e a se afastarem de alguns de seus próprios conceitos, e realmente entenderem os outros como eles são. As outras duas qualidades vêm com a experiência de vida, e outras vezes através da terapia ou de vivencias como grupos de encontro.

VEJA – Por que o senhor começou a chamar as pessoas de “clientes” , em vez de “pacientes”?
ROGERS – A razão mais profunda foi nunca ter sentido que as pessoas que me procuram eram “pacientes”. Não eram doentes, e sim pessoas em dificuldade. Então, qual o termo mais apropriado ? Em inglês, “cliente” é aquele que vem buscar o seu serviço. Mas ele ainda é responsável por si mesmo.

VEJA – Qual sua maior fonte de aprendizagem?
ROGERS – São as pessoas e os estudantes com quem convivo e trabalho. Quando você se abre ao mundo de outros, um dos riscos – e a maior vantagem – é que você terá mais possibilidade de aprender alguma coisa.

VEJA – O senhor tem se preocupado , ultimamente,de maneira crescente,com a educação como forma de comunicação entre as pessoas. Como vê o sistema escolar vigente em seu pais?
ROGERS – Até recentemente, a ênfase em mais escolas, mais educação para todos e o fato de que uma pessoa nada pode fazer se não tiver um diploma universitário resultaram num modo mais mecânico de educação , tentando preparar as pessoas para uma sociedade mecanicamente orientada. De uns tempos para cá, no entanto , têm ocorrido mudanças que dão maior ênfase à liberdade no aprendizado, onde o individuo, pode escolher o que é de maior significação para a sua vida e aprender isso. Assim , ele é levado a um processo de aprendizagem constante em vez de uma educação mecanicamente orientada, que geralmente faz as pessoas sentirem que finalmente acabaram o curso , já têm seu diploma , então não precisam estudar mais. O aprendizado autodirigido, em contrate , faz com que as pessoas tenham sempre vontade de estudar e apreender . Isso a entusiasma , assim como satisfaz ás suas necessidades.

VEJA – Os adversários desse tipo de ensino tradicionalmente argumentam com o fato de que a pessoa, nesse caso , terá uma educação limitada somente a seus interesses e pode tornar-se incapaz de perceber mudanças. O que acha disso?
ROGERS – Se observarmos estudantes que saíram de escolas tipicamente tradicionais , depois de um ano ou dois, notaremos que eles também adquiriram uma educação limitada a seus próprios interesses. Eles se lembram de algumas coisas, mas a maior parte delas já foi esquecida, pois geralmente foram estudadas somente para um teste, um exame .Então , tanto um como outro modo de ensino pode ser limitado aos próprios interesses da pessoa. Mas o estudante autodirigido pelo menos conhece mais a si mesmo , conhece suas forças e suas fraquezas. E, porque ele é automotivado, freqüentemente quer preencher os lapsos de sua educação.

VEJA – O senhor acredita que a autodisciplina surge naturalmente com o aprendizado autodirigido?
ROGERS – Sim, a liberdade e a responsabilidade sempre caminham juntas, e isso é valido tanto para a educação quanto para outros aspectos da vida. A pessoa tem que viver com as conseqüências do que aprende. Se não pode perceber as mudanças , então será enganada pelos outros. E, quando isso torna claro, mais ela será responsável – ao contrario de alguém que teve liberdade mas não reconheceu suas conseqüências.

VEJA – Seguindo a tradição humanista, o senhor costuma enaltecer a bondade nas pessoas, mas não estará deixando um pouco de lado o maquiavelismo e o espírito de competição, que naturalmente existe em nossa sociedade?
ROGERS – Fui muitas vezes acusado de não compreender a maldade nas pessoas – e levo a sério este tipo de critica , isso pode até ser verdade. Mas cheguei a uma posição, não através de pensamentos passivos mas através de meus contatos diretos com pessoas , tanto em terapia quanto em grupos, ou mesmo em salas de aula, nos quais percebi que, se confio plenamente em sua capacidade de se compreenderem melhor e ser mais autodirigidas, essas escolhem direções que são sociais e não anti-sociais, ou más. Dizem que com esse tipo de terapia o individuo pode muito bem ser um melhor ladrão ou um melhor assassino , e para mim essa é uma possibilidade bastante lógica. Mas, de acordo com minhas experiências , isso simplesmente não acontece. Se ofereço a uma pessoa a possibilidade de se expressar, de buscar suas próprias direções, ela não escolhe ser um melhor ladrão ou coisa semelhante, mas procura seguir a direção de maior harmonia com seus companheiros.

VEJA – Uma terapia ou um grupo de encontro resolveria todos os problemas da pessoa , tornaria sua vida bem mais fácil?
ROGERS – Não isso não é verdade . A pessoa se desenvolverá mas o crescimento será sempre doloroso. Quando os potenciais humanos são desenvolvidos, a vida se torna mais complexa. As pessoas se descartam de seus velhos problemas deixando-os para trás, mas , quando vão em frente, encaram novos problemas , talvez tão difíceis com os anteriores – porém mais excitantes, pois elas aí estão mais conscientes e mais prontas a lidar com eles. Portanto o prazer de ser mais independente, mais real e mais livre é mais que suficiente para contrabalançar a dor e a dificuldade que advêm deste tipo de crescimento. Para a máxima curiosidade e aprendizagem desse tipo , tanto as crianças quanto os adultos precisam de amor de um individuo , ou de um grupo, que possa criar segurança suficiente para que a pessoa que está se desenvolvendo se atreva a tomar riscos que a levem a essas áreas de crescimento. E essa é uma das coisas que um grupo de encontro proporciona – a segurança de um ambiente de compreensão, com pessoas que procuram de amar mutuamente. A habilidade de tomar riscos é um dos efeitos básicos mais importantes de um grupo de encontro. Faço questão da palavra “risco” porque toda aprendizagem é um risco; no entanto, é a nova aprendizagem e o novo comportamento que tornam a vida excitante. É o que leva as pessoas a um desenvolvimento mais completo.

VEJA – Em seus trabalhos o senhor costuma se referir ao que chama de “pessoa emergente”. O que será isso?
ROGERS – Vejo a pessoa emergente como a que tomou o risco de viver de um modo novo e mais humano numa sociedade que não encoraja esse tipo de aprendizagem. Portanto, seu caminho não é fácil. São pessoas que não estão ligadas a coisas materiais , embora possam aprecia-las se as possuírem. Em termos de autoridade, vejo pessoas emergentes como alguém que tem um sentimento bastante profundo, de que somente dentro de si existe a maior fonte de autoridade, na qual pode confiar. Esta pessoa está pronta a ouvir qualquer autoridade, mas quando se trata de seu próprio comportamento, a escolha está unicamente, dentro de si mesma. Ela é quem avalia toda experiência e autoridade, e toma decisões baseadas no que ela quer fazer. Na verdade , sempre existiu uma ou outra pessoa assim. No entanto, ter um grande grupo de indivíduos tomando decisões por si mesmo , como aconteceu nos Estados Unidos, durante a guerra do Vietnam, quando um vasto numero de jovens simplesmente se recusou a ir para a guerra,é realmente um novo aspecto da sociedade.

VEJA – A pessoa emergente seria um produto exclusivo da sociedade americana ou ela pode surgir também em sociedade de paises em desenvolvimento?
ROGERS – Os Estados Unidos, principalmente na região oeste, são um terreno bastante fértil para esse tipo de indivíduos. Mas eu os tenho encontrado também em outros paises, como Holanda , Alemanha, Japão, Austrália, e sinto mesmo que o Brasil é um bom solo para esse tipo de pessoas. Em qualquer cultura , essa pessoa irá encontrar dificuldades – mas sinto no Brasil, uma coragem igual à que encontro nos Estados Unidos. Sou muito a favor dessas pessoas , pois elas apreciam o fato de que a vida é um processo de mudança. Portanto, não estão atadas a nenhuma ortodoxia ou tradição e nem qualquer modo fixo de fazer as coisas.

FONTE: Revista VEJA no. 441
16 de fevereiro de 1977
Páginas 3, 4 e 6


Disponível em: http://www.encontroacp.psc.br/entrevista_rogers.htm. Acesso em: 28/06/09

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A Escola libertária Summerhill



A Escola Summerhill foi fundada em 1921 pelo Escocês Educador e Jornalista Alexander Sutherland Neill (1883-1973), em princípio instalou-se em Hellerau, na cidade de Dresden na Alemanha, posteriormente muda para Áustria, numa região idílica no topo de uma montanha. Em 1923 Neill muda para o centro de Lyme Regis, no sul da Inglaterra, numa casa chamada Summerhill, em 1927 muda para Leiston, condado pertencente à Suffolk, interior da Inglaterra a 160 quilômetro da capital britânica, onde permanece até então. Essa escola trouxe novos princípios pedagógicos, ou seja, uma maneira diferente de enxergar a educação e, oferece aos alunos livre-arbítrio para se expressarem além de os mesmos criarem suas próprias regras e ditarem seu ritmo, um lugar onde as crianças têm o mesmo direito dos adultos.
Sendo a primeira escola infantil democrática do mundo, Summerhill atendem crianças do ensino fundamental e médio de lugares mais distintos, eles moram lá, vivem em total liberdade, respeitando sempre as normas vigentes do país, podendo ser rompidas desde que eles assumam pelos seus atos. Internamente os alunos não são obrigados a assistirem às aulas, só assistem as que querem e quando querem e as disciplinas são escolhidas por eles, com isso a criança tem liberdade para escolher e decidir o que ela deve aprender.
Toda criança em Summerhill tem os mesmos direitos e peso de voto nas reuniões, inclusive dos professores e “staff” administrativo para decidir às normas que regem seu cotidiano. Elas não são obrigadas a votar, essas reuniões são realizadas duas vezes por semana e a própria comunidade escolar é quem elabora às regras que serão democraticamente votadas. Com essa idéia de liberdade, Neill acreditava que as crianças aprendiam melhor, estando livres da coerção e da repressão que são utilizadas em muitas escolas convencionais, ele coloca que “criadores aprendem o que desejam aprender. Não sabemos quanta liberdade de criação é morta nas salas de aula”. Neill (apud GENTILE, 2008, p. 1).


As idéias e influências de Alexander Sutherland Neill


Neill teve idéias em comum com Carl Rogers (1902-1987), quando baniu da escola os prêmios e os castigos, convencido que o prêmio estava enraizado na concepção que o trabalho era bem feito e o castigo vinha junto com o fracasso.
Suas idéias pedagógicas desenvolveram baseado-se no filósofo iluminista Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), na qual “acreditava na bondade inata do homem. Ele tratou de demonstrar que a essência do ser humano é de fato bondosa”. (NEA-FEUSP, S/D). Teve influências no campo da Psicologia com estudos dos psicanalistas Sigmund Freud (1856-1939) e Wilhelm Reich (1897-1957), que se tornou o seu terapeuta. De acordo com Neill, a educação deveria trabalhar basicamente com a dimensão emocional do aluno, para que a sensibilidade ultrapassasse sempre a racionalidade.


O objetivo da Escola Summerhill


Para Neill o objetivo de Escola era o equilíbrio emocional, como principal fonte definidora do jovem, para torná-los felizes.
Contudo percebemos que a Escola Summerhill veio para adaptar-se aos alunos, e não ao contrário. Com isso legitima a idéia de Neill que, a criança é livre por natureza, e tem liberdade intelectual, emocional e artística, “a verdadeira liberdade é aquela que respeita os direitos e a liberdade alheios”. (PACIEVITCH, 2009, p. 1).

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS



GENTILE, Paola. Pedagogia: Alexander Sutherland Neill. Disponível em: http://educarparacrescer.abril.com.br/aprendizagem/alexander-neill-307867.shtml. Acessado em 22/06/2009.

JOSÉ, Elizabete da Assunção; COELHO, Maria Tereza. Problemas de aprendizagem. 12. ed. São Paulo: Ática, 2002.

MILHOLLAN, Frank; FORISHA, Bill E. Skinner x Rogers: maneiras contrastantes de encarar a educação. 3.ed. São Paulo: Summus, 1978.

NEA-FEUSP. Temas e pensadores: Alexander Sutherland Neill. Disponível em: http://nea.fe.usp.br/site/temaspensadores/mostradetalhe.asp?IdInf=666. Acessado em 22/06/2009.

PACIEVITCH, Thais. A. S. Neill. Disponível em: http://www.infoescola.com/biografias/a.-s.-neill/. Acessado em 22/06/2009.

ROGERS, Carl R. Liberdade de aprender em nossa década. Porto Alegre: Artes Médicas, 1985.

ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. 5. ed São Paulo: Martins Fontes, 2001.